Cama de capim seco: alternativa rentável aos atravessadores e à escassez de serragem

out 31st, 2009 | By Ricardo Ribeiro | Category: Cama de Frango

Em Visconde do Rio Branco, Zona da Mata mineira, projeto associativo viabiliza o uso do capim seco nos aviários e contribui para melhorar a renda dos pequenos criadores

globoruralOs produtores de frango têm passado por maus momentos nos últimos meses. Estão pagando mais pelo milho, componente principal das rações, e recebendo preços mais baixos pelas aves que entregam. Além dessa dificuldade, em Visconde do Rio Branco, pequeno município da Zona da Mata mineira, há algum tempo os criadores, integrados da indústria de alimentos Pif Paf, enfrentam outro problema. A serpilha, ou pó de serra, chamada também de maravalha, usada nas camas dos aviários estava pela hora da morte. “Esse mercado foi dominado por um pequeno grupo de fornecedores que fechou acordos exclusivos de coleta dos resíduos da indústria moveleira, e ficamos à mercê deles. Quando negociamos melhores pagamentos pelo nosso frango junto à indústria, por exemplo, esses atravessadores automaticamente reajustam os preços da serpilha, o que praticamente anula o nosso ganho”, explica José Davi Ervilha, presidente da Avizom – Associação dos Avicultores da Zona da Mata, que congrega 475 avicultores de 25 municípios da região. Além da serragem, os materiais mais usados como cama de aviário são as cascas de café e de arroz e o sabugo de milho picado. Como sua disponibilidade está vinculada aos ciclos das safras, acabaram não sendo boa alternativa para os avicultores de Visconde do Rio Branco.

Em 1995, quando Ervilha estava em sua primeira gestão como presidente da associação, surgiu a idéia de testar a viabilidade da utilização de capim seco nos aviários. “O capim como cama de frango já foi usado na avicultura, mas sua secagem ao sol não se revelou apropriada, pois o processo não retirava toda a umidade das gramíneas. Com isso, era comum a ocorrência de doenças”, explica Ervilha.

Para resolver os problemas de sanidade, a Avizom, em parceria com a Universidade Federal de Viçosa, MG, desenvolveu novo método para secar o capim, fazendo uma adaptação do secador de café. O processo é simples: um “aspirador” com motor elétrico suga ar para dentro de uma fornalha a lenha, que o esquenta a uma temperatura de cerca de 120ºC. Esse ar quente é canalizado para dentro de uma barcaça (um piscinão de 15 metros cúbicos), onde o capim, já picado, é “assado” por cinco a sete horas, dependendo do clima. Revolvido de duas em duas horas, o material perde quase toda a umidade, mantendo, no entanto, suas qualidades nutritivas.

novatec3O projeto ficou um tempo parado, interrompido pelo sucessor de Ervilha na associação em 1996. Com o retorno do mentor da idéia à presidência, a produção de capim seco voltou com tudo desde o início deste ano. Com duas unidades de secagem, adquiridas com a verba da própria Avizom (5 mil reais por fornalha), funcionando 24 horas por dia, a “fábrica de secagem” produz cerca de 120 toneladas de capim por mês. “Isso ainda é muito pouco, pois a demanda hoje é de cerca de 300 toneladas. Mas já estamos programando uma ampliação”, diz o presidente da Avizom. Ele explica que os melhores capins para as camas de aviário, por conta do volume de matéria seca produzida, são o napiê e o cameron. No início do projeto, a idéia era de que cada avicultor plantasse um pouco de capim, trocando um caminhão de matéria verde pelo mesmo volume de matéria seca. Essa parceria não deu certo e a associação arrendou uma área de cerca de 10 hectares para o cultivo das gramíneas. Também a forma de comercialização mudou. “Vendíamos o capim seco por metro cúbico, mas o pessoal socava uma quantidade enorme dentro do caminhão. Hoje, vendemos por tonelada”, justifica Ervilha. O fato é que a produção do novo material para a cama de aviário veio em boa hora. Além do problema do cartel que a comercializa, a serpilha também começa a rarear. As fábricas de móveis da região estão substituindo a madeira por um tipo de compensado, o MDF, levado do Sul do país, cuja utilização já não produz pó de serra. “Isso é um grande problema para os atravessadores de serpilha, mas não vai ser para nós”, comemora o presidente da Avizom.

Vantagem no cocho

Cama de capim é mais indicada para bovinos

A grande vantagem da cama de capim, garantem os avicultores de Rio Branco, é que, depois de utilizada nos aviários, ela pode ser levada ao cocho para a alimentação do gado. Os resíduos dos aviários são muito usados na bovinocultura, pois as fezes das aves – cada uma produz cerca de 1,5 quilo do nascimento ao abate, que ocorre entre 40 e 47 dias de vida – são muito ricas em uréia, fósforo e nitrogênio. Nos casos em que o material usado nas camas de frango é a serpilha, no entanto, a fibra de madeira acaba sendo apenas um adicional inócuo, já que é completamente indigesta. “Seu uso tem um problema: como a serpilha geralmente sai de indústrias de móveis ou de grandes serrarias, sempre vem alguma coisa junto: parafusos, grampos e pregos. Cheguei até a perder animais”, conta José Luís Freire, pequeno produtor de leite em Rio Branco. Hoje a cama de pó de serra representa cerca de 60% da forragem que ele fornece no cocho ao gado, mas, com a cama de capim, esse percentual deve subir para 80%, calcula Freire. “Comprar a cama com o novo material vai ser uma vantagem, mesmo seu preço sendo maior do que o da cama de serpilha.”

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Enquanto 1 tonelada de serpilha sai por 45 reais, a mesma quantidade de capim custa 69 reais. Mas a vantagem está na hora de vender: 70 reais a tonelada da cama de capim, contra 30 reais pela mesma quantidade de serpilha. Gilvan Roberto da Silva, um dos  primeiros criadores a usar a nova cama, ganhou 800 reais com a venda da cama (tem contrato de exclusividade com um comprador para toda a produção) que comprou por 150, e está muito satisfeito. “É que 1 tonelada de capim seco se transforma em 2,6 toneladas de alimento para o gado quando os frangos vão para o abate, por causa do volume de fezes e da ração desperdiçada pelas aves”, explica.

Apesar de ser um bom adicional alimentício para o gado, a cama de aviário ainda desperta desconfiança entre os criadores. O problema, explica Fábio Diniz, técnico da Emater especializado em produção leiteira, é que com a ingestão dessa forragem há o risco de transmissão do botulismo. A doença, mortal para o gado, pode ocorrer se os animais ingerirem, junto com a cama, algum pintinho morto e não descartado, pois a toxina butolínica é produzida por bactérias nos ossos das aves. Fernando Pereira da Silva, pesquisador da Universidade Federal de Viçosa, considera, no entanto, remota a possibilidade de o gado ser contaminado com botulismo através da cama de capim seco. “A baixíssima umidade desse material já evita o desenvolvimento de bactérias. E, como o revolvimento da cama de capim na granja deve ser feito de dois em dois dias, é praticamente impossível que alguma ave morta passe desapercebida”, garante ele, que assessora o desenvolvimento do projeto da Avizom desde o início. Assessor também da Polidryer, empresa que fabrica os secadores de capim, Silva vê nessa técnica uma saída para pequenos avicultores, principalmente em regiões de pecuária. “Como o equipamento é barato, ele pode ser adquirido por pequenos grupos, um secador para cada cinco granjas. A matéria-prima é abundante, e a produção da cama de capim surge como mais uma alternativa para baixar os custos da avicultura.”

Fonte: Revista Globo Rural
Por Verena Glass
Fotos Ernesto de Souza


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